
PRIMEIRAS IMPRESSÕES DO BORDADO TEMPO
As Narrativas Iniciais marcam o momento em que a investigação se volta para o ateliê biográfico,
um espaço de experimentação onde a artista-educadora mergulha em seu arquivos para ressignificar a trajetória pessoal e profissional.
É um primeiro olhar para o arquivo, as primeiras impressões táteis e olfativas.
Nesta etapa, o bordado deixa de ser apenas uma técnica manual e passa a ser um
gesto de escuta e atuação. Ao intervir sobre fotografias, cartas e diários, a pesquisa propõe
uma desaceleração vital onde o bordar o tempo funciona como uma ferramenta política e poética para afirmar a existência e construir um corpo memorial.
Aqui, o tempo não é medido pelo relógio, mas pela profundidade das reflexões
e pela persistência da memória.

Nesse item há o movimento de olhar para trás para compreender a própria origem e trajetória. A autora utiliza uma fotografia encontrada nos guardados da sua mãe, para ativar no corpo novos modos de interpretar o mundo, afirmando-se em um lugar de transição para o que chama de corpo memorial.
O "ponto atrás" simboliza o elo necessário entre o passado e o futuro, sugerindo que, ao reconhecer de onde se vem, é possível caminhar com mais clareza e calma, resistindo à pressa que fragmenta a experiência.
"Ponto Atrás”,
arte sobre foto de acervo pessoal, colagem digital e bordado,Sílvia Lima, 2024.

“Ponto invisível”,
arte sobre documento pessoal,colagem digital e bordado,
Sílvia Lima, 2024.
Nesta seção, a prática do bordar atua sobre um registro oficial, o antigo documento de identidade da pesquisadora.
O "ponto invisível" representa a resistência contra o apagamento de histórias e sabedorias familiares que não constam nos registros oficiais.
Ao intervir no documento, a autora integra a "cultura escrita" (arquivo) com a "ação incorporada" (repertório do gesto de bordar). Dá visibilidade às mulheres protagonistas de sua história que foram silenciadas pela burocracia documental. Transforma o arquivo estático em um campo de conhecimento dinâmico e político.

“Ponto ziguezague”,
arte sobre pano de mesa, colagem digital e bordado, Sílvia Lima, 2024.
O "ponto ziguezague" descreve a ação de bordar sobre um objeto afetivo: um pano de mesa usado por sua mãe antes de falecer. Diferente de uma linha do tempo retilínea e rígida, este ponto simboliza uma jornada mutável e intuitiva. Bordar sem técnica, em silêncio, permite que a memória e a saudade se transformem em autoconhecimento.
A autora reflete sobre sua identidade como mulher gorda, questionando se sua espacialidade e temporalidade
são respeitadas ou
estigmatizadas pela sociedade.
Ao final, a recusa em bordar linhas retas representa uma aceitação da caminhada na formação humana e profissional, feita de sensações, memórias e caminhos não lineares.