
METODOLOGIA-CONVITE
faça o seu ateliê biográfico
Nesta pesquisa, o arquivo pessoal deixa de ser um conjunto de papéis
esquecidos para criar um território vivo de criação.
A trama assim, desdobrou-se em um CONVITE para que mais artistas e arte-educadores possam também habitar a presença, assumindo a coexistência de múltiplas temporalidades entre o sujeito e o arquivo.
Você já parou para ouvir o que dizem os seus silêncios e os seus "guardados"?
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Neste contexto, o ato de intervir sobre fotos, diários e cartas através de costuras, desenhos e colagens, busca-se, deliberadamente, o ritmo que se estica em câmera lenta: um fazer manual que se opõe à lógica produtivista e capitalista
para dar lugar ao tempo do ritual.
Por que iniciar o seu próprio ateliê biográfico?
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Para Ressignificar: transforme fotografias, cartas e registros em narrativas vivas.
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Para Desacelerar: utilize o gesto manual como resistência à pressa moderna.
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Para Fortalecer: o corpo memorial é tecido por linhas, afetos e nós, conectando sua história íntima à sua prática profissional e às suas múltiplas temporalidades.
METODOLOGIA-CONVITE
Para trilhar este caminho de investigação manual e memorial, delineio os seguintes passos norteadores:
• Mapear a pressa: Antes de lançar ao ateliê, é interessante reconhecer as tensões que seu corpo sustenta. Propõe-se iniciar, de forma visceral e sem filtros estéticos, um registro das urgências, aflições e os ritmos que regem seu tempo de arte-educador no cotidiano. Para dar materialidade a esse mapa, utilize o suporte que for mais imediato, para escrever palavras soltas em papéis rasgados, riscar diagramas de sua rotina, anotar as dores latentes e os instantes de alegria, ou, gravar áudios curtos sobre os momentos de dispersão e atenção plena. Provoque-se a perceber as inquietudes da pressa com gestos concretos, como cronometrar o tempo de uma tarefa insignificante, listar os "tempos mortos" ou desenhar um gráfico do seu cansaço. Este mapeamento não é um diário de produtividade, mas um inventário das fraturas do seu tempo.
• O olhar: inicie com uma observação demorada sobre seus arquivos pessoais, que podem ser documentos, fotografias, cartas, agendas ou pequenos objetos que resistiram ao tempo. Permita que a materialidade desses itens convoque lembranças adormecidas ou convoque novas conexões imagéticas. Mantenha papel e caneta à disposição para anotar, assim que surjam, as impressões, sentimentos e lampejos que emergem desse primeiro contato contemplativo.
• O registro: organize os materiais em grupos ou outra forma de disposição que faça sentido para o seu momento presente. Questione a natureza dessa guarda: por que este rastro foi preservado? A quem pertenceu esta memória? Qual intenção estava contida nesse registro original? Entenda que o ato de organizar é, em si, um exercício de clareza narrativa e uma primeira intervenção sobre a multiplicidade do arquivo.
• O suporte: selecione materiais do seu cotidiano que estimulem a investigação manual como fios, agulhas, pigmentos, tintas ou papéis de diferentes gramaturas. No meu percurso, utilizei bordados, nanquim, aquarelas e colagens sobre planos de aula e anotações acumuladas desde 2002, além de objetos-imagens compostos por galhos e fios. Busque suportes e ferramentas que lhe permitam revelar o que está oculto ou tensionar o que parece evidente nos documentos, transformando o arquivo em matéria plástica.
• O gesto performativo: produza ações intencionais sobre os arquivos, desvinculadas de padrões estéticos pré-estabelecidos. A diretriz é entregar-se a repetição, à manualidade e aos desejos/riscos que o movimento irá provocar. Para tanto, procure intervir fisicamente sobre o arquivo, rompendo a sacralidade do objeto original, ouse riscar, rasurar, desenhar, costurar, sombrear palavras ou imagens, criando novas camadas de visibilidade. Volte aos escritos produzidos na etapa do "Olhar", escreva por cima, recorte, cole, refaça. É na prática, entre erros, acertos, dúvidas e provocações que o desejo do caminhar se revela. Não busque uma finalidade imediata; permita que o bordar o tempo apresente suas respostas através da experiência visceral do fazer.
• O sentido: provoque em seu corpo e em suas reflexões todos os tipos de sentidos emanados do arquivo. Habite a incerteza do trajeto; a clareza do sentido, muitas vezes, manifesta-se ao final da caminhada, provocado por meio de uma investigação sensorial direta. Permita-se não saber, é preciso sentir a textura, o peso e o cheiro das superfícies, deixando que as reações físicas guiem a próxima intervenção, ao mesmo tempo em que se busca escutar o som do papel ao ser manuseado, rasgado ou dobrado em busca de ritmos que ecoem na memória. Ao observar as sombras e os relevos criados pelas costuras e colagens, percebe-se como o volume altera a mensagem original, permitindo-se mover-se com o arquivo, trocando suportes ou iluminações para notar como o contexto físico desloca o significado. Mais uma vez, é fundamental anotar as sensações imediatas — como arrepios, incômodos ou surpresas — que surgem no exato momento do fazer manual, habitando a incerteza do trajeto sem a urgência da definição. Por fim, o sentido aqui é uma construção táctil que não precede o gesto, mas emana dele.
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O registro da travessia: documente os processos e os estados de consciência por meio de fotografias, vídeos ou diários de bordo. O registro das reflexões produzidas durante e após as práticas é o que consolida a transição da experiência estética para o conhecimento formativo, transformando o rastro pessoal em um saber tramado na multiplicidade de muitas histórias, memórias, caminhadas do individual e do coletivo.